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CARTA AO LEITOR

Querido leitor,

Se este livro chegou às suas mãos, acredito que não foi por acaso.

Talvez você esteja vivendo um momento de reflexão. Talvez esteja enfrentando uma crise de fé, uma decepção, uma enfermidade, um fracasso ou simplesmente aquele sentimento difícil de explicar de que algo está faltando em sua vida.

Eu conheço esse sentimento.

Durante muitos anos caminhei entre a fé e a frustração. Conheci a alegria de servir a Deus, mas também conheci a dor do afastamento. Vivi experiências profundas com o Senhor, mas também experimentei o vazio de uma vida distante da Sua presença.

Este livro não foi escrito por um homem perfeito.

Foi escrito por alguém que caiu.

Por alguém que se perdeu.

Por alguém que permitiu que a ambição, o orgulho e as decepções ocupassem o lugar que pertencia somente a Deus.

Mas também foi escrito por alguém que descobriu que a graça de Deus é maior do que qualquer erro.

Ao ler estas páginas, talvez você se identifique com algumas partes da minha história. Talvez encontre respostas para perguntas que carrega há muito tempo. Ou talvez descubra que ainda existe esperança para recomeçar.

Meu desejo não é que você admire minha trajetória.

Meu desejo é que você olhe para Cristo.

Porque os homens falham.

As instituições falham.

Os líderes falham.

Mas Jesus continua sendo o mesmo.

Se este livro ajudar você a dar um passo em direção a Deus, então tudo terá valido a pena.

Que o Senhor fale ao seu coração da mesma forma que falou ao meu.

Com carinho,

Joceli Antonio Schossler

 

QUANDO A FÉ SE PERDE NO CAMINHO

A queda, o deserto e o reencontro com Deus

Introdução

Escrever estas páginas não é fácil.

Durante muito tempo tentei esconder minhas dores, justificar meus erros e culpar outras pessoas pelas feridas que carrego. Era mais fácil apontar para os homens do que olhar para mim mesmo. Era mais confortável falar das injustiças que sofri do que reconhecer as escolhas equivocadas que fiz.

Mas chega um momento em que a verdade precisa ser encarada.

Esta não é a história de um homem perfeito.

Também não é a história de um grande líder religioso.

É a história de alguém que conheceu Deus, experimentou Sua presença, recebeu dons espirituais, sonhou em servi-Lo e, mesmo assim, perdeu o rumo.

Muitos testemunhos falam sobre vitórias extraordinárias. O meu fala sobre uma queda dolorosa.

Fala sobre orgulho espiritual.

Fala sobre ambição disfarçada de chamado.

Fala sobre feridas causadas por homens.

Mas também fala sobre as feridas que eu mesmo causei.

Por muitos anos acreditei que meu problema eram as igrejas, os líderes, os sistemas e as instituições. Hoje percebo que a raiz mais profunda estava dentro de mim.

Eu queria servir a Deus.

Mas também queria reconhecimento.

Eu queria cumprir um propósito.

Mas também queria ocupar uma posição.

Eu queria ser usado por Deus.

Mas, secretamente, queria ser admirado pelos homens.

Foi nessa mistura perigosa que comecei a me perder.

E quando percebi, já estava distante daquilo que realmente importava: a presença de Deus.

Este livro não pretende acusar igrejas nem defender sistemas religiosos.

Também não pretende atacar pastores ou denominações.

Meu objetivo é compartilhar a caminhada de um homem que saiu do caminho, sofreu as consequências e descobriu que ainda existe esperança para quem deseja voltar.

Se você também já se decepcionou com pessoas, com instituições ou consigo mesmo, talvez encontre nestas páginas um pouco da sua própria história.

Porque Deus continua sendo Deus mesmo quando nós falhamos.

E Sua graça continua alcançando aqueles que acreditam que já foram longe demais.

CAPÍTULO 1

O Dia em Que Encontrei Jesus

Quando aceitei Jesus Cristo, minha vida não estava destruída.

Ao contrário do que muitos imaginam, eu não estava mergulhado nas drogas, nem vivendo uma vida de violência ou criminalidade.

Eu tinha família.

Tinha trabalho.

Tinha sonhos.

Tinha estabilidade.

Minha vida parecia seguir um curso normal e relativamente tranquilo.

Foi exatamente nesse período que Deus começou a falar ao meu coração.

No início foram pequenos sentimentos.

Uma inquietação.

Uma sensação de que existia algo maior do que a rotina diária.

Eu possuía muitas coisas importantes, mas sentia que faltava algo.

Hoje entendo que era Deus me chamando.

Quando finalmente entreguei minha vida a Jesus, algo extraordinário aconteceu dentro de mim.

Não foi apenas uma mudança de religião.

Foi uma transformação interior.

Passei a enxergar o mundo de forma diferente.

As Escrituras ganharam vida.

As orações se tornaram reais.

A presença de Deus passou a fazer parte dos meus dias.

Lembro-me da alegria daqueles primeiros meses.

Tudo parecia novo.

Tudo parecia possível.

Eu lia a Bíblia com entusiasmo.

Participava das reuniões.

Falava de Jesus para qualquer pessoa que quisesse ouvir.

Minha fé era simples.

Pura.

Sem interesses.

Sem ambições.

Sem disputas.

Eu apenas queria conhecer mais a Deus.

E talvez esse tenha sido o período mais saudável da minha vida espiritual.

Porque naquela época eu não buscava posição.

Não buscava reconhecimento.

Não buscava autoridade.

Buscava apenas a presença.

Mas eu ainda não sabia que as maiores batalhas da fé nem sempre vêm de fora.

Muitas vezes elas nascem dentro de nós.

O inimigo que mais tarde me derrubaria não seria um homem.

Não seria uma igreja.

Não seria uma denominação.

Seria o meu próprio coração.

E eu ainda não fazia ideia disso.

CAPÍTULO 2

A Enfermidade Que Mudou Tudo

Existem momentos na vida em que acreditamos ter encontrado estabilidade.

Achamos que finalmente compreendemos como as coisas funcionam. Fazemos planos para o futuro, organizamos nossos sonhos e imaginamos que os próximos anos seguirão um caminho previsível.

Eu também pensava assim.

Depois de aceitar Jesus, minha vida parecia caminhar em direção a uma fase de crescimento e amadurecimento. Minha fé estava forte, minha família seguia seu curso normal e eu acreditava que o melhor ainda estava por vir.

Mas Deus tinha outros planos.

Foi então que a enfermidade chegou.

Ela não pediu licença.

Não avisou.

Não deu sinais claros de que estava se aproximando.

Simplesmente entrou na minha vida e mudou tudo.

De repente, aquilo que parecia garantido tornou-se incerto.

O corpo começou a apresentar limitações.

A mente passou a conviver com preocupações que antes não existiam.

Os dias já não eram tão leves quanto antes.

A enfermidade trouxe medo.

Trouxe dúvidas.

Trouxe sofrimento.

E trouxe perguntas.

Muitas perguntas.

Por que Deus permitiu isso?

O que eu havia feito de errado?

Por que uma pessoa que buscava servir a Deus precisava enfrentar algo tão difícil?

Durante muito tempo procurei respostas.

Nem sempre as encontrei.

Mas aprendi algo importante: nem toda provação é castigo.

Às vezes, Deus permite certas situações porque deseja realizar algo mais profundo dentro de nós.

Naquele período, minha fé não diminuiu.

Pelo contrário.

Ela cresceu.

Quanto mais eu sofria, mais buscava a Deus.

Quanto mais fraco me sentia, mais precisava de Sua presença.

As orações se tornaram mais intensas.

As leituras bíblicas mais frequentes.

Minha dependência de Deus aumentou.

E foi justamente nesse contexto que começaram as experiências espirituais que marcaram minha vida.

Passei a perceber coisas que antes não percebia.

Sentia Deus falar ao meu coração.

Recebia direcionamentos.

Experimentava momentos de profunda comunhão espiritual.

Era como se a enfermidade tivesse aberto uma porta para uma dimensão de intimidade com Deus que eu nunca havia conhecido.

Enquanto meu corpo sofria, meu espírito parecia crescer.

Eu acreditava que estava vivendo o melhor período da minha caminhada cristã.

E, de certa forma, estava.

Mas havia um perigo escondido naquele crescimento espiritual.

Um perigo que eu ainda não conseguia enxergar.

Com o passar do tempo, comecei a perceber que Deus estava me concedendo dons.

Algumas pessoas reconheciam isso.

Outras procuravam minha opinião.

Algumas me viam como alguém espiritualmente maduro.

No início, aquilo não me afetava.

Toda honra era dada a Deus.

Toda glória pertencia a Ele.

Mas lentamente algo começou a mudar.

Sem perceber, passei a gostar da admiração das pessoas.

Passei a valorizar os elogios.

Passei a desejar experiências cada vez maiores.

A presença de Deus já não parecia suficiente.

Eu queria mais.

Queria revelações maiores.

Queria mais autoridade.

Mais reconhecimento.

Mais influência.

Mais importância.

O problema não era desejar crescer espiritualmente.

O problema era a motivação escondida dentro desse desejo.

Eu ainda falava de Deus.

Ainda orava.

Ainda acreditava.

Mas algo estava mudando no interior do meu coração.

A simplicidade dos primeiros dias começava a desaparecer.

Aquele homem que apenas queria estar aos pés de Jesus começava a dar lugar a alguém que queria ser visto pelos homens.

E essa mudança aconteceu de forma tão lenta que eu não percebi.

O inimigo raramente destrói uma vida de uma só vez.

Ele trabalha aos poucos.

Um pensamento de cada vez.

Uma vaidade de cada vez.

Uma ambição de cada vez.

Até que aquilo que parecia apenas um desejo legítimo se transforma em uma armadilha.

Hoje, olhando para trás, percebo que Deus estava me ensinando a depender dEle.

Mas eu estava aprendendo a depender dos dons.

Deus queria me aproximar de Sua presença.

Mas eu estava me encantando com aquilo que Sua presença produzia.

E sem perceber, comecei a valorizar mais os presentes do que o próprio Doador.

A enfermidade havia me levado para mais perto de Deus.

Mas as experiências espirituais que surgiram naquele período começavam a alimentar algo perigoso dentro de mim.

Algo que mais tarde me faria perder o rumo.

Eu ainda não sabia.

Mas a próxima etapa da minha caminhada seria marcada por um desejo que parecia santo.

Um desejo que parecia espiritual.

Um desejo que parecia nascer de Deus.

O desejo de ser pastor.

E foi exatamente ali que a estrada começou a se dividir.

CAPÍTULO 3

O Chamado, o Sonho e a Ambição

Depois de tudo o que vivi durante a enfermidade, minha vida espiritual nunca mais foi a mesma.

Eu sentia que Deus tinha algo especial reservado para mim.

As experiências que vivia, os dons que começavam a se manifestar e a maneira como algumas pessoas me enxergavam alimentavam dentro de mim uma convicção cada vez maior: eu acreditava que havia sido chamado para uma grande obra.

No início, esse pensamento parecia puro.

Talvez realmente existisse um chamado.

Talvez Deus estivesse preparando um caminho para mim.

Mas existe uma diferença entre ouvir um chamado e tentar controlá-lo.

Existe uma diferença entre seguir o tempo de Deus e correr na frente dEle.

E foi exatamente aí que comecei a errar.

Eu já não estava satisfeito apenas em aprender.

Queria ensinar.

Já não queria apenas servir.

Queria liderar.

Já não queria apenas ouvir mensagens.

Queria pregá-las.

O desejo de ser pastor crescia dentro de mim.

A cada culto, a cada estudo bíblico, a cada experiência espiritual, esse sonho se tornava mais forte.

Eu imaginava multidões ouvindo a Palavra.

Imaginava vidas sendo transformadas.

Imaginava Deus usando minha vida de forma extraordinária.

Mas junto com essas imagens havia algo que eu não percebia.

Meu ego começava a participar do processo.

Nem todo sonho espiritual nasce exclusivamente do Espírito.

Às vezes, parte dele nasce da alma.

E quando a alma assume o controle, ela busca aquilo que alimenta sua própria necessidade de importância.

Hoje consigo reconhecer algo que naquela época eu não enxergava.

Eu não queria apenas cumprir a vontade de Deus.

Eu queria ser alguém.

Queria ser reconhecido.

Queria ser respeitado.

Queria provar para mim mesmo e para os outros que eu possuía valor.

O púlpito começou a representar mais do que um lugar de serviço.

Começou a representar uma identidade.

E isso é perigoso.

Porque quando nossa identidade depende de um cargo, de uma função ou de um título, acabamos nos afastando daquilo que realmente somos diante de Deus.

Filhos.

Apenas filhos.

Mas eu não compreendia isso.

Via o ministério pastoral como o ápice da vida cristã.

Como uma conquista.

Como uma chegada.

E assim comecei a perseguir esse objetivo com toda minha força.

Estudei.

Busquei capacitação.

Me envolvi cada vez mais com atividades religiosas.

Dediquei tempo, energia e esforço.

Tudo parecia confirmar que eu estava caminhando na direção correta.

E talvez estivesse.

O problema não era o destino.

Era o coração que me conduzia até ele.

Enquanto eu me esforçava para alcançar aquilo que chamava de propósito, Deus continuava tentando me ensinar lições mais profundas.

Lições sobre humildade.

Lições sobre submissão.

Lições sobre obediência.

Mas eu estava focado demais no lugar para perceber o processo.

Queria o resultado.

Não queria esperar pelo preparo.

Queria a posição.

Não queria o quebrantamento.

Queria a autoridade.

Não queria a dependência.

E sem perceber, comecei a confundir ambição espiritual com chamado divino.

Há uma armadilha muito sutil nisso.

Porque quando alguém busca riqueza, fama ou prazer, os perigos são evidentes.

Mas quando alguém busca poder religioso, os perigos costumam se esconder atrás de boas intenções.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Eu acreditava estar buscando a Deus.

Mas, aos poucos, comecei a buscar aquilo que Deus poderia me proporcionar.

Meu relacionamento com o Senhor já não era tão simples como no início.

As orações mudaram.

As expectativas mudaram.

Os sonhos mudaram.

E, sem perceber, eu também havia mudado.

Ainda amava a Deus.

Ainda acreditava em Sua Palavra.

Ainda desejava servi-Lo.

Mas meu coração já não estava totalmente alinhado com Sua vontade.

Eu queria que Deus abençoasse meus planos.

Quando deveria estar buscando os planos de Deus.

Esse erro parece pequeno.

Mas pode mudar completamente o rumo de uma vida.

Muitos anos depois, olhando para trás, percebo que Deus tentou me alertar várias vezes.

Por meio das circunstâncias.

Por meio de pessoas.

Por meio da própria Palavra.

Mas eu estava determinado a seguir a direção que considerava correta.

E quando uma pessoa deixa de ouvir a voz de Deus para ouvir apenas seus próprios desejos, ela começa a caminhar por um terreno perigoso.

Foi assim que cheguei ao momento que tanto sonhava.

Finalmente me tornei pastor.

Era a realização de um sonho.

Era a conquista pela qual eu havia lutado.

Era aquilo que eu acreditava ser o propósito da minha vida.

Mas eu descobriria da forma mais dolorosa possível que possuir um título não significa possuir um ministério.

E que receber uma posição não significa estar preparado para carregá-la.

O que parecia o início da minha maior vitória estava prestes a se transformar no começo da minha maior queda.

CAPÍTULO 4

Pastor Sem Rebanho

O dia em que me tornei pastor deveria ter sido um dos mais felizes da minha vida.

Durante anos eu havia sonhado com aquele momento.

O desejo que nasceu em meu coração durante minha caminhada cristã parecia finalmente ter se realizado.

Eu havia estudado.

Me preparado.

Persistido.

Superado dificuldades.

Agora eu carregava um título que, durante muito tempo, considerei o símbolo do meu chamado.

Eu era pastor.

Pelo menos era isso que dizia minha credencial.

Era isso que dizia meu certificado.

Era isso que as pessoas viam.

Mas havia uma pergunta que eu ainda não tinha coragem de fazer a mim mesmo:

Pastor de quem?

Com o passar do tempo, comecei a perceber uma realidade que me incomodava profundamente.

Eu tinha o título, mas não tinha um rebanho.

Tinha a posição, mas não tinha um campo de trabalho definido.

Tinha a função, mas não encontrava o espaço que imaginava ocupar.

Aquilo começou a gerar dentro de mim uma mistura de frustração e inquietação.

Eu acreditava que Deus havia me chamado para algo grande.

Mas as oportunidades não apareciam.

As portas não se abriam como eu esperava.

As pessoas não reconheciam meu potencial da forma que eu acreditava merecer.

Quanto mais eu observava minha situação, mais frustrado ficava.

Comecei a questionar.

Primeiro silenciosamente.

Depois abertamente.

Questionava líderes.

Questionava decisões.

Questionava estruturas.

Questionava sistemas.

Questionava praticamente tudo.

Em muitos momentos eu acreditava estar defendendo princípios.

Talvez em algumas situações realmente estivesse.

Mas hoje reconheço que nem sempre minhas motivações eram tão nobres quanto eu imaginava.

Havia orgulho envolvido.

Havia ressentimento.

Havia impaciência.

Eu não compreendia por que precisava esperar.

Não compreendia por que precisava me submeter a determinadas orientações.

Não compreendia por que pessoas que, na minha visão, possuíam menos preparo ocupavam posições que eu desejava ocupar.

Meu coração começou a endurecer.

E quando o coração endurece, a voz de Deus se torna cada vez mais difícil de ouvir.

Passei a enxergar defeitos em todo lugar.

Falhas nas lideranças.

Falhas nas igrejas.

Falhas nas instituições.

Falhas nos irmãos.

Falhas nos métodos.

Falhas nas doutrinas.

Falhas nas organizações.

Tudo parecia errado.

Tudo parecia corrompido.

Tudo parecia distante do modelo que eu acreditava ser o correto.

O problema é que, enquanto eu analisava os erros dos outros, deixava de examinar os meus próprios.

A Bíblia diz que é fácil enxergar o cisco no olho do próximo e ignorar a trave que está no nosso.

Sem perceber, eu estava vivendo exatamente isso.

Minha atenção estava voltada para aquilo que os outros faziam.

Mas Deus queria tratar aquilo que existia dentro de mim.

Eu me sentia incompreendido.

Sentia que ninguém valorizava minha capacidade.

Acreditava que muitos líderes estavam mais preocupados em preservar suas posições do que em reconhecer novos chamados.

Talvez algumas dessas percepções tivessem fundamento.

Talvez algumas não.

Mas independentemente disso, minha reação estava me afastando daquilo que realmente importava.

A comunhão com Deus.

Minhas orações começaram a mudar.

Já não eram mais orações de entrega.

Eram orações de reclamação.

Já não eram conversas com um Pai amoroso.

Eram cobranças.

Questionamentos.

Desabafos carregados de amargura.

Pouco a pouco, a alegria da minha fé começou a desaparecer.

Aquele entusiasmo dos primeiros anos parecia cada vez mais distante.

A simplicidade havia sido substituída pela crítica.

O amor havia sido substituído pela frustração.

A esperança havia sido substituída pela decepção.

E o mais perigoso de tudo:

Eu acreditava que estava certo.

Quando uma pessoa acha que está completamente certa, ela fecha as portas para a correção.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Tornei-me resistente aos conselhos.

Resistente às advertências.

Resistente às orientações.

Resistente à autoridade.

Qualquer tentativa de correção era interpretada como perseguição.

Qualquer discordância era vista como rejeição.

Qualquer limite parecia uma afronta.

Sem perceber, comecei a me isolar.

E o isolamento espiritual é um dos terrenos mais perigosos para qualquer cristão.

Porque quando nos afastamos da comunhão, passamos a ouvir apenas nossa própria voz.

E a nossa própria voz nem sempre fala em nome de Deus.

O tempo passou.

As feridas aumentaram.

As decepções se acumularam.

E aquilo que começou como um sonho ministerial transformou-se em um peso.

O homem que desejava servir a Deus estava cada vez mais ocupado defendendo suas próprias opiniões.

O homem que queria ser pastor estava perdendo o coração de servo.

E quando o coração de servo desaparece, o ministério perde o sentido.

Eu ainda carregava o título.

Mas já estava me afastando do propósito.

Ainda falava sobre Deus.

Mas já não caminhava tão perto dEle.

Ainda frequentava ambientes religiosos.

Mas meu coração estava cada vez mais distante da presença que um dia foi minha maior alegria.

A queda ainda não havia acontecido completamente.

Mas suas raízes já estavam crescendo.

E logo chegaria o momento em que minha luta deixaria de ser contra sistemas religiosos.

Minha luta passaria a ser contra algo muito mais profundo.

Contra mim mesmo.

CAPÍTULO 5

A Guerra Contra Deus Que Eu Não Percebia

Durante muito tempo, acreditei que minha luta era contra homens.

Eu estava convencido de que os responsáveis pela minha dor eram líderes que me decepcionaram, igrejas que não me compreenderam e sistemas religiosos que, na minha visão, haviam se afastado daquilo que Deus desejava.

E, para ser sincero, algumas feridas eram reais.

Houve situações que me machucaram profundamente.

Palavras que deixaram marcas.

Atitudes que produziram decepções.

Promessas que nunca foram cumpridas.

Momentos em que me senti ignorado, descartado e esquecido.

Não eram dores imaginárias.

Eram dores verdadeiras.

Mas havia uma verdade ainda maior que eu não conseguia enxergar.

Minha guerra já não era apenas contra pessoas.

Sem perceber, eu estava me afastando de Deus.

O processo foi lento.

Tão lento que quase não notei.

Não aconteceu de uma vez.

Não houve um dia específico em que acordei e decidi abandonar minha fé.

Pelo contrário.

Eu continuava acreditando em Deus.

Continuava acreditando em Jesus.

Continuava acreditando na Bíblia.

Mas algo estava morrendo dentro de mim.

A intimidade.

A confiança.

A dependência.

A alegria da presença de Deus.

Eu ainda falava sobre fé.

Mas já não vivia pela fé.

Eu ainda conhecia versículos.

Mas eles já não aqueciam meu coração.

Eu ainda orava.

Mas minhas orações pareciam não ultrapassar o teto.

A presença de Deus, que um dia havia sido tão real, parecia cada vez mais distante.

Durante muito tempo culpei as circunstâncias.

Culpei os homens.

Culpei a religião.

Mas hoje reconheço algo doloroso.

Enquanto eu observava os erros dos outros, meu coração estava sendo consumido pela amargura.

E a amargura é uma prisão silenciosa.

Ela não chega fazendo barulho.

Chega se instalando aos poucos.

Primeiro vem a decepção.

Depois o ressentimento.

Depois a revolta.

Depois a indiferença.

E quando percebemos, já estamos longe de onde Deus queria que estivéssemos.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Passei a alimentar pensamentos negativos.

Passei a reviver constantemente situações que me feriram.

Passei a construir argumentos para justificar minha revolta.

Quanto mais pensava nas feridas, maiores elas se tornavam.

Quanto mais falava delas, mais profundas ficavam.

E sem perceber, estava permitindo que minhas dores ocupassem o lugar que deveria pertencer a Deus.

Minha identidade passou a ser construída pelas minhas frustrações.

Eu já não era apenas um servo de Deus.

Eu era um homem decepcionado.

Um homem ferido.

Um homem revoltado.

Um homem que carregava perguntas sem respostas.

E quanto mais me definia pelas minhas dores, mais distante ficava da cura.

Porque Deus não pode restaurar aquilo que insistimos em preservar.

Muitas vezes o Senhor tentava falar comigo.

Através de uma mensagem.

Através de uma passagem bíblica.

Através de uma conversa inesperada.

Mas meu coração estava fechado.

Eu não queria ouvir.

Eu queria ter razão.

E existe uma grande diferença entre buscar a verdade e querer ter razão.

Quem busca a verdade está disposto a mudar.

Quem quer apenas ter razão não aceita ser confrontado.

Eu me tornei essa segunda pessoa.

Passei a acreditar que todos estavam errados.

Todos.

As igrejas estavam erradas.

Os líderes estavam errados.

Os sistemas estavam errados.

As instituições estavam erradas.

E eu era a vítima de tudo isso.

Foi preciso muito tempo para compreender que, embora muitos erros realmente existissem, eu também havia errado.

E talvez esse tenha sido um dos maiores erros da minha vida:

Confundir discernimento com orgulho.

Confundir independência com rebeldia.

Confundir convicção com dureza de coração.

Confundir sinceridade com falta de submissão.

Enquanto eu acreditava estar defendendo a verdade, Deus tentava me ensinar humildade.

Mas eu não queria humildade.

Eu queria respostas.

Eu queria reconhecimento.

Eu queria justiça.

Eu queria explicações.

E quando elas não vieram da forma que eu esperava, comecei a me afastar ainda mais.

Foi então que algo assustador aconteceu.

Um dia percebi que já não sentia vontade de congregar.

Depois percebi que já não sentia vontade de orar.

Depois percebi que já não sentia vontade de ler a Bíblia.

E então percebi algo ainda pior.

Já não sentia falta dessas coisas.

Esse foi um dos momentos mais sombrios da minha caminhada.

Porque o problema não era apenas estar distante de Deus.

O problema era ter me acostumado com essa distância.

O deserto havia se tornado minha nova realidade.

A solidão espiritual parecia normal.

A ausência da presença de Deus já não me assustava como antes.

E isso era terrível.

Porque quando alguém para de sentir saudade de Deus, corre o risco de permanecer perdido sem perceber.

Mas a graça de Deus é maior do que nossos erros.

Mesmo quando nos afastamos.

Mesmo quando endurecemos o coração.

Mesmo quando deixamos de ouvi-Lo.

Ele continua chamando.

Continua esperando.

Continua estendendo a mão.

Eu ainda não estava pronto para voltar.

Ainda carregava muitas feridas.

Ainda carregava muito orgulho.

Ainda carregava muita revolta.

Mas uma pequena chama permanecia acesa.

Uma lembrança insistente dos dias em que minha fé era viva.

Dos dias em que a presença de Deus era suficiente.

Dos dias em que eu não precisava de títulos, reconhecimento ou posições para me sentir completo.

E foi essa pequena chama que impediria minha história de terminar naquele deserto.

Porque Deus ainda não havia desistido de mim.

Mesmo quando eu parecia ter desistido dEle.

CAPÍTULO 6

Desigrejado, Ferido e Sem Esperança

Existe uma diferença entre estar sozinho e sentir-se abandonado.

Durante muitos anos da minha vida, enfrentei momentos de solidão. Mas nada se comparou ao período em que me tornei um homem desigrejado, ferido e espiritualmente perdido.

Não aconteceu de uma única vez.

Foi o resultado de uma longa caminhada.

Uma sucessão de escolhas.

Uma coleção de feridas.

Um acúmulo de decepções.

Quando percebi, já estava distante das igrejas.

Distante das lideranças.

Distante dos irmãos.

E, principalmente, distante de Deus.

No início, tentei convencer a mim mesmo de que estava bem.

Dizia que não precisava de igreja para seguir a Cristo.

Dizia que Deus conhecia meu coração.

Dizia que minha fé era pessoal.

Dizia que o problema eram as instituições religiosas.

Em parte, havia verdade nisso.

Nenhuma igreja salva.

Nenhuma denominação substitui Jesus.

Nenhum sistema religioso pode ocupar o lugar de Deus.

Mas eu estava usando algumas verdades para esconder uma realidade mais profunda.

Eu estava ferido.

Muito ferido.

E pessoas feridas costumam construir muros onde deveriam construir pontes.

Eu havia erguido muralhas ao meu redor.

Ninguém mais podia me decepcionar.

Ninguém mais podia me corrigir.

Ninguém mais podia me confrontar.

Mas também ninguém conseguia me ajudar.

O isolamento que parecia proteção tornou-se prisão.

Com o passar do tempo, comecei a perceber o peso dessa escolha.

As reuniões haviam acabado.

As conversas sobre fé tornaram-se raras.

Os momentos de comunhão desapareceram.

As experiências espirituais que um dia marcaram minha vida pareciam pertencer a outra pessoa.

Às vezes eu me perguntava:

"Onde foi parar aquele homem que amava a presença de Deus?"

"Onde está aquele jovem convertido que passava horas lendo a Bíblia?"

"Onde está aquele servo que acreditava que Deus podia mudar qualquer situação?"

As respostas eram dolorosas.

Porque esse homem parecia ter desaparecido.

E quem ocupava seu lugar era alguém cansado.

Desiludido.

Desmotivado.

Sem direção.

Sem propósito.

Sem esperança.

Foi nessa fase que comecei a experimentar algo que nunca imaginei viver.

O vazio espiritual.

Não era apenas tristeza.

Não era apenas decepção.

Era a sensação de que algo essencial havia sido perdido.

Como se uma parte importante da minha alma tivesse se apagado.

Os dias se tornaram repetitivos.

As semanas pareciam iguais.

Os anos começaram a passar sem significado.

Eu continuava vivendo.

Continuava trabalhando.

Continuava cumprindo minhas responsabilidades.

Mas por dentro existia um enorme silêncio.

Um silêncio que nenhuma distração conseguia preencher.

Havia momentos em que eu lembrava dos dias em que sentia Deus tão perto.

Lembrava das orações respondidas.

Das experiências espirituais.

Das lágrimas derramadas diante da presença do Senhor.

E essas lembranças produziam sentimentos contraditórios.

Por um lado, aqueciam meu coração.

Por outro, aumentavam minha dor.

Porque me lembravam daquilo que eu havia perdido.

Muitas vezes pensei que meu problema era apenas com a igreja.

Mas, no fundo, eu sabia que era maior do que isso.

Meu problema era com Deus.

Ou melhor.

Meu problema era com aquilo que eu acreditava que Deus havia permitido acontecer comigo.

Eu não compreendia meus fracassos.

Não compreendia minhas perdas.

Não compreendia meus sonhos interrompidos.

Não compreendia por que tantas portas haviam se fechado.

E quando não conseguimos entender os caminhos de Deus, existe uma tentação muito perigosa:

A tentação de julgá-Lo.

Eu nunca teria coragem de dizer isso em voz alta.

Mas, em muitos momentos, meu coração estava ressentido com Deus.

Eu não O odiava.

Não deixei de acreditar nEle.

Mas também não confiava como antes.

Era como se existisse uma distância invisível entre nós.

Uma barreira construída por perguntas sem respostas.

E essa barreira parecia impossível de derrubar.

Mas foi justamente no momento mais escuro da minha caminhada que algo começou a mudar.

Não foi uma visão.

Não foi um milagre.

Não foi uma voz audível.

Foi algo mais simples.

E mais poderoso.

A saudade.

Depois de tantos anos distante, comecei a sentir falta de Deus.

Não da religião.

Não dos títulos.

Não das posições.

Não dos cargos.

Sentia falta da presença.

Sentia falta da paz.

Sentia falta da comunhão.

Sentia falta daquele primeiro amor que um dia transformou minha vida.

Pela primeira vez em muito tempo, deixei de pensar no que as pessoas fizeram comigo.

E comecei a pensar no que eu havia perdido ao me afastar de Deus.

Essa percepção não trouxe alívio imediato.

Pelo contrário.

Trouxe lágrimas.

Arrependimento.

Dor.

Mas também trouxe algo que eu julgava ter desaparecido para sempre.

Esperança.

Pequena.

Frágil.

Quase imperceptível.

Mas real.

Porque se eu ainda sentia saudade da presença de Deus, significava que meu coração ainda não estava completamente morto.

E se meu coração ainda podia sentir saudade, talvez ainda existisse um caminho de volta.

Talvez Deus não tivesse desistido de mim.

Talvez o deserto não fosse o final da história.

Talvez a queda não fosse definitiva.

Talvez o homem que se perdeu ainda pudesse ser encontrado.

E essa possibilidade mudaria tudo.

CAPÍTULO 7

A Saudade de Deus

Existem saudades que o tempo não consegue apagar.

Saudades de pessoas.

De lugares.

De momentos especiais.

Mas existe uma saudade ainda mais profunda.

A saudade da presença de Deus.

Durante anos, tentei preencher o vazio que existia dentro de mim com explicações, justificativas e argumentos.

Dizia para mim mesmo que minha situação era consequência das decepções que havia sofrido.

Dizia que ninguém entenderia minha dor.

Dizia que as circunstâncias haviam me levado até aquele ponto.

Mas, no silêncio da minha alma, uma verdade começou a se tornar impossível de ignorar.

Eu sentia falta de Deus.

Não era saudade dos cultos.

Não era saudade dos púlpitos.

Não era saudade dos títulos.

Não era saudade do reconhecimento.

Era saudade de Deus.

Saudade daquele relacionamento simples que existia quando tudo começou.

Saudade das orações sinceras.

Saudade das lágrimas derramadas sem vergonha.

Saudade da paz que não dependia das circunstâncias.

Saudade da alegria que nascia apenas por saber que Deus estava perto.

Por muito tempo procurei culpados para minha situação.

Mas a saudade começou a produzir algo diferente dentro de mim.

Ela começou a quebrar meu orgulho.

E o orgulho era uma das últimas fortalezas que ainda permaneciam de pé.

Durante anos eu havia tentado explicar meus erros apontando para os erros dos outros.

Mas Deus começou a mostrar algo que eu evitava enxergar.

Eu também precisava me arrepender.

Não apenas das minhas reações.

Não apenas das minhas palavras.

Não apenas das minhas atitudes.

Precisava me arrepender do lugar que havia dado ao orgulho.

Precisava me arrepender de ter colocado minhas vontades acima da vontade de Deus.

Precisava me arrepender de ter desejado mais os cargos do que a presença.

Mais o reconhecimento do que a obediência.

Mais a posição do que a comunhão.

Foi uma descoberta dolorosa.

Porque ninguém gosta de admitir que errou.

Principalmente quando passou anos acreditando que estava certo.

Mas quanto mais Deus trabalhava meu coração, mais eu compreendia uma verdade transformadora:

Arrependimento não é humilhação.

Arrependimento é libertação.

Durante muito tempo pensei que voltar para Deus significaria enfrentar condenação.

Imaginava que encontraria rejeição.

Imaginava que Deus estivesse decepcionado comigo.

Mas aos poucos comecei a lembrar das Escrituras.

Lembrei-me do filho pródigo.

Lembrei-me de Pedro após negar Jesus.

Lembrei-me de Davi após seus pecados.

Lembrei-me de tantos homens que falharam profundamente e, ainda assim, encontraram graça.

Então uma pergunta começou a ecoar dentro de mim:

Se Deus restaurou tantas pessoas, por que não poderia restaurar a mim também?

Essa pergunta abriu uma porta que estava fechada havia muito tempo.

Pela primeira vez em anos, voltei a orar sem tentar impressionar ninguém.

Sem discursos elaborados.

Sem palavras bonitas.

Sem pretensão.

Apenas conversei com Deus.

Como um filho ferido conversa com seu Pai.

E descobri algo maravilhoso.

Ele ainda estava lá.

Eu havia me afastado.

Mas Ele não.

Eu havia abandonado o caminho.

Mas Ele continuava esperando.

Eu havia deixado de ouvi-Lo.

Mas Ele nunca deixou de me chamar.

Naquele momento compreendi uma verdade que mudou minha forma de enxergar toda a minha história.

Deus nunca me abandonou.

Mesmo durante minha rebeldia.

Mesmo durante minha revolta.

Mesmo durante meu afastamento.

Mesmo durante os anos em que vivi espiritualmente perdido.

Ele continuava presente.

Silencioso muitas vezes.

Mas presente.

Paciente.

Esperando o dia em que eu finalmente deixaria de correr.

Esperando o dia em que eu finalmente me renderia.

Esperando o dia em que eu entenderia que Seu propósito era muito maior do que meus sonhos pessoais.

Foi então que comecei a perceber algo que nunca havia entendido antes.

Talvez meu maior erro não tenha sido desejar servir a Deus.

Talvez meu maior erro tenha sido tentar servir a Deus sem primeiro aprender a obedecê-Lo.

Eu queria ser líder.

Mas Deus queria formar um servo.

Eu queria autoridade.

Mas Deus queria humildade.

Eu queria ser visto.

Mas Deus queria que eu aprendesse a depender apenas dEle.

Durante anos lutei para construir uma identidade baseada naquilo que eu fazia para Deus.

Mas Deus queria que minha identidade estivesse em quem eu era diante dEle.

Filho.

Simplesmente filho.

Essa descoberta trouxe lágrimas.

Muitas lágrimas.

Porque percebi quanto tempo perdi.

Quantas oportunidades desperdicei.

Quantos caminhos percorri sem necessidade.

Mas também percebi algo ainda mais importante.

A graça de Deus é maior do que o tempo perdido.

Maior do que os erros cometidos.

Maior do que as quedas sofridas.

Maior do que os fracassos acumulados.

Naquele momento, nasceu dentro de mim uma decisão.

Talvez eu não pudesse mudar o passado.

Talvez eu não pudesse apagar minhas escolhas.

Talvez eu não pudesse recuperar todos os anos perdidos.

Mas eu podia fazer uma coisa.

Podia voltar.

Voltar para Deus.

Voltar para a presença.

Voltar para o lugar onde tudo começou.

Não para recuperar um cargo.

Não para buscar um ministério.

Não para conquistar reconhecimento.

Mas para reencontrar o Pai.

E foi naquele instante que compreendi algo que mudaria o restante da minha vida.

O verdadeiro milagre não era voltar a pregar.

Não era voltar a liderar.

Não era voltar a ocupar uma posição.

CAPÍTULO 8

Voltando ao Primeiro Amor

Quando decidi voltar para Deus, imaginei que tudo aconteceria rapidamente.

Pensei que bastaria fazer uma oração, derramar algumas lágrimas e, de repente, tudo voltaria a ser como antes.

Mas descobri que a restauração é um processo.

Assim como meu afastamento não aconteceu em um único dia, minha volta também não aconteceria de uma única vez.

Deus não estava interessado apenas em me trazer de volta.

Ele queria reconstruir aquilo que havia sido quebrado dentro de mim.

E a primeira coisa que Ele começou a tratar foram minhas feridas.

Durante anos eu carreguei mágoas que considerava justificadas.

Guardava lembranças de palavras que me machucaram.

De decisões que me decepcionaram.

De pessoas que me frustraram.

De líderes que não corresponderam às minhas expectativas.

Essas memórias haviam se tornado parte da minha identidade.

Eu já não sabia mais quem era sem elas.

Mas Deus começou a me mostrar algo difícil de aceitar.

Enquanto eu continuasse alimentando minhas feridas, elas continuariam governando minha vida.

Era preciso perdoar.

Não porque as pessoas mereciam.

Mas porque eu precisava ser livre.

Perdoar não significava dizer que tudo estava certo.

Não significava aprovar erros.

Não significava esquecer o passado.

Significava entregar a Deus aquilo que eu já não tinha forças para carregar.

Foi uma das batalhas mais difíceis da minha vida.

Porque algumas dores eram profundas.

Algumas cicatrizes ainda estavam abertas.

Mas aos poucos compreendi que o perdão não acontece apenas uma vez.

Às vezes ele precisa ser renovado diariamente.

Cada lembrança exigia uma nova entrega.

Cada mágoa exigia uma nova decisão.

E cada decisão me aproximava um pouco mais da liberdade.

Ao mesmo tempo, Deus começou a tratar algo ainda mais profundo.

Meu orgulho.

Durante muitos anos eu me considerei alguém que havia sido prejudicado.

Agora começava a enxergar quanto dano meu próprio orgulho havia causado.

Eu queria que os outros reconhecessem seus erros.

Mas Deus queria que eu reconhecesse os meus.

Eu queria ser compreendido.

Mas Deus queria me ensinar humildade.

Eu queria explicações.

Mas Deus queria confiança.

Foi então que comecei a entender uma verdade que havia ignorado durante anos.

A maturidade espiritual não é medida pelos dons que recebemos.

Nem pelos cargos que ocupamos.

Nem pelas experiências sobrenaturais que vivemos.

A verdadeira maturidade aparece quando aprendemos a obedecer mesmo sem entender tudo.

Quando continuamos confiando mesmo sem respostas.

Quando escolhemos amar mesmo depois de sermos feridos.

Essa lição transformou minha forma de enxergar minha própria história.

Passei a perceber que Deus havia estado presente até mesmo nos momentos que eu considerava fracassos.

A enfermidade.

As portas fechadas.

As decepções.

Os conflitos.

As perdas.

Nada havia escapado ao Seu controle.

Aquilo que eu chamava de derrota talvez tivesse sido uma ferramenta para me conduzir de volta à dependência dEle.

Talvez Deus nunca tenha perdido o controle.

Talvez quem perdeu o rumo fui eu.

Essa percepção trouxe paz ao meu coração.

Pela primeira vez em muitos anos, deixei de lutar contra o passado.

Deixei de tentar reescrever minha história.

Deixei de procurar culpados.

Comecei simplesmente a aceitar que Deus podia usar até mesmo meus erros para produzir algo bom.

E isso mudou tudo.

Minhas orações mudaram novamente.

Já não eram reclamações.

Já não eram cobranças.

Já não eram exigências.

Tornaram-se conversas sinceras.

Muitas vezes simples.

Muitas vezes silenciosas.

Mas verdadeiras.

Eu já não buscava revelações extraordinárias.

Buscava a presença.

Já não buscava posições.

Buscava comunhão.

Já não buscava ser visto pelos homens.

Buscava ser encontrado por Deus.

E quanto mais eu O buscava, mais percebia que Ele nunca havia me abandonado.

O Deus que encontrei nos meus melhores dias era o mesmo Deus que me sustentou nos meus piores momentos.

O Deus que me chamou quando tudo estava bem era o mesmo Deus que me procurou quando eu estava perdido.

O Deus que me deu dons era o mesmo Deus que agora queria me ensinar caráter.

Pela primeira vez em muitos anos, senti algo que julgava perdido para sempre.

Esperança.

Não a esperança de me tornar alguém importante.

Não a esperança de recuperar títulos.

Não a esperança de alcançar reconhecimento.

Mas a esperança de caminhar novamente com Deus.

E percebi que isso era suficiente.

Talvez meu futuro não fosse exatamente como eu havia imaginado.

Talvez muitos sonhos antigos jamais se realizassem.

Talvez eu nunca ocupasse as posições que um dia desejei.

Mas uma coisa era certa.

Eu estava voltando para casa.

Não para uma instituição.

Não para um sistema religioso.

Mas para os braços do Pai.

E descobri que não existe lugar melhor para um homem cansado do que esse.

Ali, finalmente, comecei a compreender o verdadeiro propósito de Deus para minha vida.

Um propósito que não estava baseado em cargos.

Nem em títulos.

Nem em reconhecimento.

Mas em algo muito mais profundo.

Conhecer a Deus.

Amá-Lo.

E caminhar com Ele até o fim.

Porque no final de tudo, é isso que realmente importa.

 

O verdadeiro milagre era voltar a amar a Deus.

E esse milagre estava apenas começando.

CAPÍTULO 9

O Propósito Que Eu Nunca Entendi

Durante muitos anos, fiz a mesma pergunta a Deus.

"Por quê?"

Por que a enfermidade?

Por que as portas fechadas?

Por que os conflitos?

Por que as decepções?

Por que tantos sonhos interrompidos?

Por que tantas perdas?

Era uma pergunta sincera.

Mas, olhando para trás, percebo que ela nascia de uma visão limitada.

Eu enxergava apenas o que estava diante dos meus olhos.

Deus enxergava toda a estrada.

Eu enxergava o momento.

Deus enxergava a eternidade.

Durante muito tempo acreditei que o propósito de Deus para minha vida estava ligado a uma função específica.

Achava que tudo girava em torno de um ministério, de uma posição, de um cargo ou de uma obra visível.

Se eu me tornasse pastor de uma grande igreja, estaria cumprindo meu propósito.

Se liderasse pessoas, estaria cumprindo meu propósito.

Se fosse reconhecido espiritualmente, estaria cumprindo meu propósito.

Mas hoje entendo que estava procurando o propósito nos lugares errados.

O propósito de Deus nunca foi apenas o que eu faria.

O propósito de Deus era aquilo que eu me tornaria.

Enquanto eu pensava em ministério, Deus pensava em caráter.

Enquanto eu pensava em liderança, Deus pensava em humildade.

Enquanto eu pensava em autoridade, Deus pensava em dependência.

Enquanto eu pensava em conquistar espaço, Deus pensava em transformar meu coração.

Essa foi uma das maiores revelações da minha vida.

Porque percebi que passei anos correndo atrás de algo que Deus nunca colocou como prioridade.

Não que servir seja errado.

Não que liderar seja errado.

Não que o ministério seja errado.

Mas tudo isso perde o valor quando substitui o relacionamento com Deus.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo.

Sem perceber, transformei o chamado em um ídolo.

Transformei o ministério em uma obsessão.

Transformei um sonho legítimo em algo mais importante do que a própria presença de Deus.

E Deus, em Sua misericórdia, permitiu que eu experimentasse o vazio dessa escolha.

Hoje compreendo algo que antes me revoltava.

Muitas das portas que se fecharam talvez tenham sido protegidas pela própria mão de Deus.

Na época enxerguei rejeição.

Hoje vejo proteção.

Na época enxerguei fracasso.

Hoje vejo direção.

Na época enxerguei abandono.

Hoje vejo cuidado.

Se algumas daquelas portas tivessem se aberto, talvez meu orgulho tivesse crescido ainda mais.

Talvez eu tivesse conquistado aquilo que desejava e perdido completamente minha alma no processo.

Talvez eu tivesse me tornado exatamente aquilo que Deus estava tentando evitar.

Essa é uma verdade difícil de aceitar.

Porque todos nós gostamos das bênçãos de Deus.

Mas raramente agradecemos pelas portas fechadas.

Raramente agradecemos pelos "não".

Raramente agradecemos pelas interrupções.

E, no entanto, muitos dos maiores livramentos da nossa vida chegam disfarçados de frustração.

Hoje consigo enxergar a enfermidade de maneira diferente.

Durante anos a vi como uma tragédia.

Agora a vejo como uma escola.

Foi através dela que aprendi a depender de Deus.

Foi através dela que descobri minha fragilidade.

Foi através dela que compreendi que a vida pode mudar rapidamente.

A enfermidade me mostrou aquilo que o conforto jamais conseguiria ensinar.

Da mesma forma, minhas decepções também se transformaram em mestres.

Elas me ensinaram que homens falham.

Pastores falham.

Líderes falham.

Instituições falham.

Mas Deus permanece fiel.

Meu erro foi esperar dos homens aquilo que somente Deus poderia oferecer.

Esperava perfeição.

Esperava compreensão absoluta.

Esperava reconhecimento.

Esperava justiça.

Mas seres humanos nunca conseguirão ocupar o lugar que pertence ao Senhor.

Quando compreendi isso, uma carga enorme saiu dos meus ombros.

Porque percebi que minha fé não precisava depender das pessoas.

Minha fé precisava estar firmada em Cristo.

Os homens podem decepcionar.

Cristo não.

As estruturas podem mudar.

Cristo não.

Os sistemas podem falhar.

Cristo não.

Essa verdade simples começou a reconstruir algo dentro de mim.

Pela primeira vez em muitos anos, parei de perguntar apenas "por quê?" e comecei a perguntar "para quê?".

E essa mudança transformou minha maneira de enxergar toda a minha história.

Talvez Deus não tenha permitido certas dores para me destruir.

Talvez tenha permitido para me moldar.

Talvez não tenha permitido o deserto para me abandonar.

Talvez tenha permitido para me ensinar.

Talvez não tenha permitido a queda para me humilhar.

Talvez tenha permitido para me mostrar que sem Ele eu não consigo permanecer de pé.

Hoje compreendo que meu maior problema nunca foi a enfermidade.

Nunca foram os líderes.

Nunca foram as igrejas.

Nunca foram as circunstâncias.

Meu maior problema foi tentar construir uma vida espiritual sem permanecer totalmente rendido a Deus.

Quando deixei de depender dEle, comecei a me perder.

Quando voltei a depender dEle, comecei a me encontrar novamente.

E então percebi algo que mudou tudo.

Meu propósito nunca foi ser conhecido pelos homens.

Meu propósito sempre foi conhecer a Deus.

Todo o resto é consequência.

Se eu liderar, que seja para Sua glória.

Se eu servir, que seja para Sua glória.

Se eu ensinar, que seja para Sua glória.

E se eu simplesmente caminhar em silêncio com Ele até o final da minha vida, isso também será suficiente.

Porque o maior sucesso que um homem pode alcançar não é conquistar um púlpito.

É permanecer na presença de Deus.

E depois de tudo o que vivi, finalmente comecei a entender isso.

Talvez tarde.

Mas ainda em tempo.

E essa compreensão preparou meu coração para a decisão mais importante de toda a minha jornada.

Não apenas voltar para Deus.

Mas permanecer com Ele até o fim.

CAPÍTULO 10

O Homem Que Precisa Recomeçar

Se você chegou até aqui, já conhece minha história.

Conhece minhas vitórias.

Conhece minhas quedas.

Conhece minhas feridas.

Conhece minhas decepções.

Conhece minha rebeldia.

Conhece meu afastamento.

E conhece também a saudade que me trouxe de volta para Deus.

Mas talvez a parte mais importante desta história não esteja no passado.

Ela está no presente.

Porque hoje eu sou um homem que precisa recomeçar.

Não escrevo estas palavras como alguém que já chegou ao destino.

Não escrevo como alguém que resolveu todos os seus problemas.

Não escrevo como alguém que possui todas as respostas.

Escrevo como alguém que finalmente entendeu que não pode continuar vivendo longe de Deus.

Durante muito tempo procurei culpados.

Procurei explicações.

Procurei justificativas.

Mas chegou um momento em que precisei parar de olhar para os outros e olhar para mim mesmo.

Foi doloroso.

Mas necessário.

Porque a cura começa quando a verdade é aceita.

Hoje reconheço meus erros.

Reconheço minha arrogância.

Reconheço minha impaciência.

Reconheço minha dificuldade em aceitar correção.

Reconheço minha rebeldia diante de autoridades.

Reconheço que muitas vezes desejei mais os dons do que o Doador.

Mais o ministério do que a presença.

Mais o reconhecimento do que a obediência.

Essa verdade não me destrói.

Ela me liberta.

Porque somente quem reconhece sua condição pode encontrar restauração.

Por muitos anos pensei que precisava recuperar aquilo que havia perdido.

Queria recuperar oportunidades.

Queria recuperar tempo.

Queria recuperar sonhos.

Queria recuperar posições.

Mas Deus começou a me mostrar algo diferente.

Antes de recuperar qualquer coisa, eu precisava recuperar meu relacionamento com Ele.

Porque sem Deus, qualquer conquista seria vazia.

Sem Deus, qualquer vitória seria incompleta.

Sem Deus, qualquer sonho realizado continuaria deixando um vazio dentro de mim.

Hoje já não peço a Deus que me devolva tudo o que perdi.

Peço apenas que me conduza para onde Ele deseja que eu esteja.

Se isso significar um ministério, amém.

Se significar anonimato, amém.

Se significar liderar multidões, amém.

Se significar caminhar em silêncio e servir discretamente, amém.

Porque finalmente compreendi que o propósito não está no tamanho da missão.

Está na fidelidade ao Senhor.

Talvez eu nunca volte a ser aquilo que imaginei.

Talvez Deus tenha outros planos.

Talvez meu futuro seja completamente diferente dos sonhos que construí.

Mas não tenho mais medo disso.

Porque aprendi que os planos de Deus são melhores do que os meus.

Mesmo quando não os entendo.

Mesmo quando eles me levam por caminhos difíceis.

Mesmo quando exigem renúncias.

Hoje sei que Deus nunca esteve tentando me tirar algo.

Ele estava tentando me salvar de mim mesmo.

Salvar-me da vaidade.

Salvar-me da ambição.

Salvar-me do orgulho.

Salvar-me da ilusão de que eu poderia viver sem depender totalmente dEle.

E por isso, ao olhar para trás, não vejo apenas fracassos.

Vejo lições.

Vejo misericórdia.

Vejo graça.

Vejo um Deus paciente que continuou me amando mesmo quando eu me afastei.

Um Deus que continuou me chamando mesmo quando eu não queria ouvir.

Um Deus que permaneceu fiel quando eu fui infiel.

Se existe uma mensagem que desejo deixar para quem lê este livro, é esta:

Nunca é tarde para voltar.

Não importa quanto tempo você tenha se afastado.

Não importa quantos erros tenha cometido.

Não importa quantas oportunidades tenha desperdiçado.

Não importa quantas vezes tenha caído.

Enquanto houver vida, existe esperança.

Enquanto houver arrependimento, existe caminho.

Enquanto houver graça, existe recomeço.

Talvez você também esteja ferido.

Talvez tenha sido decepcionado por pessoas.

Talvez tenha perdido sonhos.

Talvez esteja carregando perguntas sem respostas.

Talvez tenha desistido de si mesmo.

Mas Deus ainda não desistiu.

Ele continua chamando.

Continua esperando.

Continua oferecendo Seus braços ao filho que deseja voltar para casa.

Hoje não me considero um homem forte.

Não me considero um exemplo de perfeição.

Não me considero alguém especial.

Sou apenas um homem que caiu.

Um homem que se perdeu.

Um homem que se afastou.

Mas também sou um homem que ouviu novamente a voz de Deus.

Um homem que decidiu voltar.

Um homem que compreendeu que a presença vale mais do que qualquer posição.

E um homem que está disposto a começar tudo outra vez.

Talvez não do mesmo lugar.

Talvez não da mesma forma.

Mas com um coração diferente.

Porque agora sei algo que antes não entendia.

A maior conquista da vida não é chegar ao topo.

É permanecer aos pés da cruz.

E é exatamente lá que desejo permanecer pelo resto dos meus dias.

Epílogo

Se você me perguntasse hoje quem eu sou, eu não responderia pastor.

Não responderia líder.

Não responderia pregador.

Não responderia qualquer título.

Responderia simplesmente:

Sou um homem alcançado pela graça de Deus.

E, pela graça de Deus, estou voltando para casa.

Fim.

CAPÍTULO EXTRA

As Lições Que Aprendi no Deserto

O deserto foi o lugar que eu mais tentei evitar.

Mas foi também o lugar onde mais aprendi.

Se pudesse voltar no tempo, certamente escolheria não passar por muitas dores que enfrentei. Porém, se eliminasse o deserto da minha história, eliminaria também as lições mais importantes que Deus me ensinou.

Hoje compreendo que algumas verdades só podem ser aprendidas quando tudo o que parecia seguro desaparece.

1. Deus é maior que qualquer instituição

Passei anos confundindo Deus com sistemas religiosos.

Quando me decepcionei com homens, acabei permitindo que minha fé fosse abalada.

No deserto aprendi que minha fé não pode depender de pessoas.

Ela precisa estar fundamentada em Cristo.

2. Os dons não substituem a intimidade

Receber dons espirituais não significa maturidade espiritual.

Durante muito tempo valorizei mais aquilo que Deus me dava do que a presença do próprio Deus.

Hoje sei que nenhum dom compensa a ausência da comunhão com o Senhor.

3. O orgulho é um inimigo silencioso

Nunca me considerei uma pessoa orgulhosa.

Mas o deserto revelou áreas do meu coração que eu desconhecia.

O orgulho não aparece apenas quando alguém se sente superior.

Ele também aparece quando nos recusamos a ser corrigidos.

Quando insistimos em ter razão.

Quando deixamos de ouvir a voz de Deus.

4. Nem toda porta fechada é derrota

Durante anos chorei por oportunidades perdidas.

Hoje agradeço por muitas delas.

Algumas portas foram fechadas pela misericórdia de Deus.

Ele enxergava perigos que eu não conseguia ver.

5. Deus trabalha mais no caráter do que no sucesso

Eu queria resultados.

Deus queria transformação.

Eu queria crescimento visível.

Deus queria profundidade espiritual.

O que Deus faz dentro de nós sempre será mais importante do que aquilo que fazemos para Ele.

6. O perdão é indispensável

Nenhuma restauração acontece sem perdão.

Enquanto mantive minhas mágoas vivas, permaneci preso ao passado.

Quando comecei a perdoar, comecei a ser livre.

O perdão não mudou as pessoas.

Mas mudou meu coração.

7. A presença vale mais do que a posição

Esta talvez seja a maior lição de todas.

Passei anos buscando lugares de destaque.

Hoje entendo que nada se compara à presença de Deus.

Um homem pode ter cargos, títulos e reconhecimento e ainda estar vazio.

Mas quem possui a presença de Deus possui aquilo que realmente importa.

Conclusão

O deserto não foi o fim da minha história.

Foi a sala de aula onde Deus me ensinou aquilo que eu jamais aprenderia nos tempos de abundância.

Ali descobri minha fragilidade.

Ali reconheci meus erros.

Ali aprendi a depender novamente do Senhor.

E ali compreendi uma verdade que carregarei para o resto da vida:

Deus não desperdiça nenhuma dor quando permitimos que ela nos aproxime dEle.

CARTA AO LEITOR

Querido leitor,

Se este livro chegou às suas mãos, acredito que não foi por acaso.

Talvez você esteja vivendo um momento de reflexão. Talvez esteja enfrentando uma crise de fé, uma decepção, uma enfermidade, um fracasso ou simplesmente aquele sentimento difícil de explicar de que algo está faltando em sua vida.

Eu conheço esse sentimento.

Durante muitos anos caminhei entre a fé e a frustração. Conheci a alegria de servir a Deus, mas também conheci a dor do afastamento. Vivi experiências profundas com o Senhor, mas também experimentei o vazio de uma vida distante da Sua presença.

Este livro não foi escrito por um homem perfeito.

Foi escrito por alguém que caiu.

Por alguém que se perdeu.

Por alguém que permitiu que a ambição, o orgulho e as decepções ocupassem o lugar que pertencia somente a Deus.

Mas também foi escrito por alguém que descobriu que a graça de Deus é maior do que qualquer erro.

Ao ler estas páginas, talvez você se identifique com algumas partes da minha história. Talvez encontre respostas para perguntas que carrega há muito tempo. Ou talvez descubra que ainda existe esperança para recomeçar.

Meu desejo não é que você admire minha trajetória.

Meu desejo é que você olhe para Cristo.

Porque os homens falham.

As instituições falham.

Os líderes falham.

Mas Jesus continua sendo o mesmo.

Se este livro ajudar você a dar um passo em direção a Deus, então tudo terá valido a pena.

Que o Senhor fale ao seu coração da mesma forma que falou ao meu.

Com carinho,

Joceli Antonio Schossler

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